sábado, 23 de março de 2013

Contador de histórias


Em um dia qualquer do mês de agosto de 2004, depois da morte do meu filho, eu me encontrava muito infeliz, sem motivação para sair de casa ou buscar qualquer atividade que pudesse me distrair. Seria mais um dia triste e sem graça, como todos os outros, se não fosse pela insistência do meu cunhado, que intimou a mim e meu marido a fazermos um passeio em seu rancho de pescaria, situado na região de Ibitinga, São Paulo.

No início eu hesitei, mas, com a pressão dos dois, acabei cedendo para alegrar o meu marido; afinal, ele também precisava respirar novos ares e se entreter. Bem, chegando lá, ao descobrir que tinha um caminho que levava a uma mata repleta de orquídeas, eu me animei um pouco e quis sair ao encontro de belas flores para fotografá-las, já que sou uma grande admiradora e cultivadora.

 Peguei minha máquina fotográfica e arrastei todos para a aventura que eu nem imaginava que poderia se tornar a mais trágica e divertida da minha vida. Chegando ao local, uma surpresa nos aguardava: a região estava toda alagada. O caseiro, o meu marido e meu cunhado pensaram em voltar, mas eu enfrentaria o lodo para chegar mais perto da minha espécie preferida, a Brassavola perrinii. Desistir, jamais, atravessei o “rio” que se formava diante dos nossos passos, e estava cada vez mais perto das lindas orquídeas que se aglomeravam em volta de um tronco. “Pelo menos uma foto eu faria, nada e ninguém me impediria”, disse a mim mesma.

Meu marido e o caseiro abriam caminho para eu passar, mas de repente senti que não conseguia mais me mover. Minhas pernas estavam afundando na lama que se formava e eu me via completamente atolada. E o pior é que meus companheiros continuavam em frente sem dar conta de que eu havia ficado para trás. Ao chama-los, em vez de virem me ajudar, todos caíram na gargalhada, e eu fiquei lá, tentando sair da lama, caindo e me afundando de novo,  enquanto eles riam da minha desgraça. Fiquei molhada e enlameada até o pescoço, nem minha máquina fotográfica escapou, ficando encharcada. E, depois de tanto esforço para levar uma bela recordação para casa, não pude fotografá-la, mas, pelo menos, consegui chegar até o alvo e apreciar de perto as belas Brassavolas. Talvez não tivesse de levar essa lembrança para casa naquele dia,  mas a partir dessa aventura voltei a fazer minhas andanças e estou cumprindo meu objetivo: fotografar essa maravilha que embeleza a natureza e encanta os olhos de qualquer um.

Revista : O Mundo das Orquídeas – Ano 11 – nº 57
Lazara Josepha Wonrath – Americana-SP
Ex Presidente do Círculo Americanense de Orquidófilos

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