sábado, 17 de agosto de 2013

Contador de histórias - "Coisas de Principiantes"



Ao iniciar uma reforma em casa, eu contratei Joelson – um pedreiro -, que ao ver uma C.walkeriana no meu quintal, logo disparou: ‘Olha Sr. Sigfredo, lá na minha terra tem um monte dessas plantas e de várias cores’ .Eu quase pirei, pois era louco para conhecer um habitat dessas orquídeas. Imediatamente quis saber onde ficava a terra encantada do Joelson. ‘É aqui pertinho, em Cerqueira César, próximo a Avaré’.  Não pestanejei e fui logo me convidando pata leva-lo até sua casa. Então saímos à procura de um orquidófilo experiente para nos acompanhar, o Juju, amigo do Joelson, que cultivava orquídeas há mais de 30 anos.
Saímos em direção de Cerqueira César e, quase três horas depois, chegamos na cidade. Eu não via a hora de ir ao encontro das Cattleyas, mas tive que conter a minha ansiedade, pois ainda tínhamos de visitar a mãe do Joelson. Chegamos lá, eu mal conseguia me concentrar na conversa, pois só pensava nas walkerianas.
Finalmente partimos em busca das orquídeas. No início, suspeitei que não encontraríamos planta nenhuma, pois o lugar era utilizado para armazenar tijolos de construção, mas o pedreiro garantiu de pés juntos que encontraríamos muitas walkerianas por lá, então paramos o carro no meio do mato, às margens de um rio abaixo de uma represa. Chovia sem parar, mas não desistimos.
Com Joelson à frente, entramos no brejo e logo levei um escorregão e bati os glúteos no chão. Foi só risada. À medida que entravamos no lamaçal, nossos pés desapareciam na água barrenta, seguidos pelas canelas, pernas; e orquídeas que é bom , nada... De repente, Joelson grita: Não falei, olha quantas C. walkerianas ! Mas o experiente orquidófilo Juju o corrigiu: ‘Que nada, são Cattleyas da espécie forbesi’. Uma mais linda que a outra. Além das Cattleyas, encontramos uma touceira enorme de Maxillarias. Enquanto apreciávamos a beleza das flores, Joelson estava se atolando no brejo, até o pescoço. Isso foi a gota d’água para eu desistir. Disse que não prosseguia mais nem um centímetro. Estava com frio e todo sujo. Virei as costas e fui saindo todo desajeitado, quando o Juju tentou me impedir justificando: ‘As orquídeas são assim mesmo.  Imprevisíveis’.  E Joelson não satisfeito, quis ir mais a fundo, pois acreditava encontrar a Cattleya walkeriana que me prometeu.
Lá foram os três passando por cima de buracos, pelo brejo e se enveredando pelo mato, até que Joelson – que nos guiava -, começou a sussurrar lá na frente: ‘Vamos devagar, tem um negócio aqui. Ah... não é nada demais, é só uma jararaca, dormindo no arbusto, é só não fazer...’ E essa foi a última coisa que ouviu. Saí em disparada pulando os buracos, atravessando os brejos e entrei no carro tremendo e gritando: ‘Vamos embora deste lugar, não aguento mais!”
Nossa, tenho verdadeiro pavor de cobras! Voltamos de Cerqueira César sem trocar uma palavra e, infelizmente, não realizei meu sonho de conhecer um verdadeiro habitat de Cattleya walkerianas.
Revista O Mundo das Orquídeas – Ano II – nº 59

 

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